sexta-feira, 28 de agosto de 2015

A semana possível

Esta semana perdi uma paciente querida, de 98 (98!) anos, totalmente lúcida e ativa, após uma grave cirurgia de urgência: teve complicação pulmonar... Seria o resultado "esperado", mas nunca "espero" isso, não fui treinado para isso. 

Ao mesmo tempo, ontem demos alta para outro paciente, de 96 (96!) anos, sem sequelas, também submetido a procedimento de urgência. 

Penso que a vida está aí e tudo nos oferece, basta estarmos atentos: trabalhar, agradecer, compreender, aceitar, seguir em frente. 

Arrisco dizer que o paciente idoso é o maior desafio da Cirurgia neste século.


sábado, 8 de agosto de 2015

Conseguir falar com meu pai é uma vitória...

Todo mundo vai homenagear o pai no domingo; eu me contento em conseguir falar com o meu.

Era maio de 2013, faltavam seis meses para meu casamento. E desde minha formatura, em 2002, eu não falava com meu pai.

Onze anos.

Na verdade, desde que me entendo por gente, nunca falei direito com ele. Meus pais se separaram cedo, eu tinha cinco ou seis anos. Cresci vendo meu pai como a um personagem. Não conseguia compreendê-lo. 

Não o aceitava sob nenhuma hipótese, e chegava a negar até a minha própria aparência (tão parecida com a dele...): buscava sobretudo, e incessantemente, as diferenças, os contrapontos, as divergências.

Nunca concordava com o seu jeito, com suas decisões, sua maneira de viver e ver o mundo.

Quem conhece meu pai, sabe do que estou falando.

Eu me sentia órfão de pai vivo. Como ele não era o pai que eu queria e idealizava (e achava que “merecia”), passei boa parte da minha existência buscando um pai, e me comportando como um filho. Sempre.

Mas os “pais” que fui encontrando e adotando temporariamente ao longo da minha vida espertamente percebiam essa lacuna, essa necessidade tão cara, tão preciosa para a autoestima: a busca de reconhecimento e aprovação. 

Resultado: passei boa parte da minha vida a serviço de outras pessoas, de interesses que não os meus, de sonhos, projetos, empregos, trabalhos, enfim: fazia de tudo para que pudesse um dia ser finalmente adotado por alguém.

Mas essa "adoção" não vinha. 

Os pretensos pais só me faziam sofrer mais. Sofria tanto até o ponto de os abandonar, para então continuar a minha busca em outro lugar, numa outra figura, um outro “pai”. 

Eu mudava de emprego, mudava de cidade, mudava de chefe. Só não mudava meu objetivo, inconsciente, incessante.

Enquanto isso, meu pai de verdade padecia de um câncer de intestino e foi operado às pressas. Eu já havia me especializado, já era cirurgião em São Paulo: longe dele, portanto. 

Lembro que foi uma das poucas vezes em que nos falamos neste período. Não fui vê-lo, não porque não quisesse, mas simplesmente porque eu não conseguiria.

Soube, por telefone, do resultado da sua cirurgia. O meu colega cirurgião, que o havia operado, estava exultante: “Seu pai está ótimo!”. 

Fiquei petrificado, mudo. A cirurgia tinha sido um sucesso. No fundo, eu desejava o pior, queria que ele morresse, pois aí eu não teria mais nada a fazer, mais nada a dizer: tudo se resolveria como num passe de mágica.

Mas ele sobreviveria o bastante para mais uma cirurgia, pois o câncer havia voltado, poucos anos depois. Nesta época, meu pai apareceu em São Paulo de supetão, no consultório onde atendia: veio se consultar, pedir a opinião do especialista: quem melhor senão o próprio filho?

Mostrou seus exames, no que eu concordei:

- Você deve ser reoperado...
- É a sua opinião? Devo operar então?
- Acho que deve ser operado o mais rápido possível.
- Obrigado.

Levantou-se, estendeu a mão, e foi embora.

- Pai, precisa de algo?
- Pode deixar que eu me viro.

“Pai”. Fazia uns dez anos que eu não falava essa palavra para a pessoa a quem é de direito.

Dois meses depois, ele então foi reoperado. A cirurgia complicou, ficou internado um tempão. Teve alta, ficou bem. Novamente, não fui visitá-lo.

Mais um tempo passou. E em poucos meses seria meu casamento. 

O convite teria o nome dele, logo acima do nome de minha mãe. 

Mas, sinceramente, por quê? Por que, se em todos esses anos nunca o considerei? Nunca o deixei participar da minha vida...? Nunca foi meu “pai”? Vou me dobrar à formalidade?

- Você vai convidar o pai para o teu casamento? Como vai ser?

Era a pergunta da minha irmã. Muito pertinente.

- Vou. E não sei.

Chegou o dia do meu casamento. No altar, meu pai estava lá, firme, saúde de ferro, visivelmente feliz e muito emocionado. 

Quando fui cumprimentá-lo, ao final da cerimônia, chorei copiosamente.

Pedi-lhe perdão.

(Por todos estes anos de imaturidade minha).

(Por não tê-lo aceitado).

(Por não tê-lo compreendido).

(Por não tê-lo visitado no hospital, nas suas cirurgias).

(Por ter desejado a sua morte inúmeras vezes).

“Não precisa. Perdão por quê, meu filho?"

domingo, 21 de junho de 2015

É tempo de colocar a podridão para fora...

É tempo de " eviscerar"...

Em algumas situações, o cirurgião deve abrir o abdome do paciente e "eviscerá-lo". Literalmente: colocar as "tripas para fora", seja para identificar a causa do que ali acontece ou mesmo limpar e lavar uma infecção extremamente grave.

Nesta hora, com o paciente aberto e invariavelmente sob risco de morte, analisando um panorama desolador, a gente se pergunta: o que faço com isso? E agora?

A decisão muitas vezes pode valer a vida.

Observando esta nossa vida que corre, parece que o meio médico (mas não só ele, basta ver o noticiário) está passando por esse momento, um tal de “tempo de eviscerar”.

Toda a nossa podridão moral está sendo exposta. Velhos esquemas estão caindo, com modos de  trabalhar sendo rapidamente superados. É um caminho sem volta.

Nossa mesquinhez, vaidade, ganância, incompetência, comodismo e inação, estão sistematicamente sendo desnudados.

Eu conheço o meio médico, e devo confessar que é duríssimo mover-se nele com um mínimo de retidão de caráter e de honestidade. Sofre-se demais. Fico me perguntando todos os dias se vale a pena ser decente.

A coisa começa na faculdade. Se for pública, pior ainda. Professores que nenhum aluno viu, que dão aulas uma vez ao ano, ou nem aparecendo, acumulando cargos e privilégios por amizade e apaniguamento. Confrontados, escondem-se na justificativa dos salários baixos ou no mérito pelo tempo...

Aliás, aprendemos desde o início de nossa formação que ser médico mais antigo confere automaticamente um status de não precisar fazer mais nada. O sangue já foi dado: agora é derramar o dos mais jovens. E essa sistemática vai longe...

Finda a faculdade, vem a prova de especialização, a tão sonhada residência médica. Muitas das provas são cartas marcadas: favorecem determinadas pessoas, com aulas e “dicas” para que alunos sejam aprovados em detrimento de outros.

E que dizer da residência médica em si? Dois a quatro anos de trabalho semi-escravo, vendido ao jovem médico como um “treinamento em serviço”. Este “treinamento” muitas vezes é dado por preceptores psicopatas, sádicos, ou apenas mal educados e mal preparados mesmo.

Faz parte do currículo da residência ter jornadas de trabalho desumanas, em hospitais pútridos e inseguros, sem tempo muitas vezes para comer, tomar banho, escovar os dentes.  Os residentes emagrecem, ficam pálidos, adoecem (mas claro que dizem para nós que isso é “necessário” e bem-vindo). Repete-se aqui a sistemática: somos torturados e aceitamos passar por isso pois daqui a um tempo seremos nós os torturadores: um dia estaremos no lugar de nossos chefes. Como quebrar este ciclo?

Terminada a especialização, onde vamos trabalhar? Em empregos que mimetizam a própria residência médica, na mesma pirâmide que pouco se move, onde a regra não é o mérito, mas sim o tempo, as relações de amizade, o apaniguamento, o interesse político e especialmente o econômico.

Entramos na roda viva dos empregos que desafiam a Física: vários ao mesmo tempo. Recebemos benesses de laboratórios, propina de fornecedores de materiais, presentes, mimos, comissões, cargos e “boquinhas” em serviços públicos (aliás nossa realidade no serviço público mereceria uma tese).

Passamos ao largo de juramentos e colocamos nossos interesses pessoais muito acima da ética para com o paciente.  Procrastinamos as condutas médicas, mantemos gente internada que não precisa, deixamos de operar, prescrevemos medicações desnecessárias, pedimos exames sem critério algum, ou com critérios pouco abonadores...

Escondemo-nos. Usamos a Medicina como meio, e não como fim. Longe de considerar o médico como um sacerdote, penso que devemos colocar a mão na nossa consciência e reavaliarmos nossas condutas.

E todas estas “tripas podres”, conhecidas há anos, mas fechadas dentro da barriga do nosso corporativismo, estão aos poucos sendo colocadas para fora. Mas muitos de nós, médicos acostumados a antigos paradigmas, não estamos atentos a esta revolução silenciosa.

Eu comemoro. Porém fico, do mesmo jeito que no centro cirúrgico, olhando e me perguntando: O que faremos destas “tripas podres”?

domingo, 3 de maio de 2015

Meu pai emprestado foi-se embora



- Um prato de comida a mais ou a menos, não nos fará mais pobres. Fica sossegado.
E deu de ombros, franzindo a testa, num só movimento, um certo desdém despreocupado.

- Mas... eu não vou dar muito trabalho pra vocês, mesmo?

- Não vai não, Marcos - responde meu tio.

Era o ano de 1996, eu vinha do interior de Santa Catarina, adolescente, caipira e matuto de tudo, para a "grande" capital do Estado, Florianópolis, cursar Medicina.

Iria morar na casa dos meus tios, Helge e Marina. Prometi ficar seis meses. E me deixaram ficar os seis anos, até minha formatura.

Tomei meus tios como meus pais, e acho que eles souberam bem disso. Sem eles, nunca teria sido médico. E como pais que me foram, afortunadamente emprestados, eu os considerava imortais. Pais não deveriam morrer nunca, certo?

Até que um dia, na manhã de uma terça-feira, 28 de abril de 2015, meu pai emprestado se foi. Foi embora para sempre, depois de sofrer alguns dias internado, lutando com complicações de uma cirurgia de câncer de esôfago.

Tio Helge era excêntrico, no senso estrito; extraordinário. Professor universitário, radiestesista, leitor ávido (dois a três livros por mês), de excelente humor, conselheiro ponderado, amigo, confidente, escritor e contador de histórias impagáveis.

Homem de simples trato, era impossível andar em Florianópolis a pé com ele, sem logo ser parado por alguém que o conhecia: "Professor Helge...!" E embarcava num longo bate papo.

Eu ainda não consegui chorar a sua perda. Porque simplesmente não consigo perdê-lo, não quero perdê-lo, não posso perdê-lo, tamanha a importância dele e de minha tia Marina em minha vida.

Para um moleque de 18 anos, cheio de espinhas e vazio de paternidade, que só sabia trabalhar e se sujeitar a "pais" mascarados, alienados e escroques, ele correspondia a muito do que imaginava numa figura de pai. Junto com meu querido avô Alberto, ele foi a figura paterna mais importante para mim.

Aprendi com ele e com minha tia Marina que, ao contrário do que muitos me diziam, e continuariam me dizendo por muito tempo, que a escolha da minha profissão tinha sido acertada: porque era minha, e só minha.

Pela primeira vez na vida eu tive consciência (e apoio) nas minhas escolhas. Meus tios me fizeram enxergar para dentro.

Aprendi que eu não lhes devia nada em troca, nunca. Nem por me sustentarem durante a faculdade. Isso, em outras palavras, significava que amor de verdade não cobra preço algum. É apenas dado. Demorei para entender e me acostumar com isso.

Meu pai emprestado foi-se embora, mas de uma certa forma muito especial ele ficou.


Para sempre.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Você passou mais rápido que o meu tempo...

Você passou mais rápido que o meu tempo...
Todo o começo de ano é assim. Você vai embora, e eu continuo aqui. Lembro de quando você chegou no hospital, há dois anos, o jovem "médico residente" (com todas as implicações do termo), o futuro especialista, inexperiente e cheio de expectativas.
Expectativas prontamente frustradas pela aspereza do treinamento cirúrgico. Treinamento que inclui horas em pé, muitas vezes sem dormir, sem comer, sem um banho sequer. Ouvindo, com cara fechada, broncas (de todos os lados), ironias de mau gosto, piadas jocosas, sem falar o tanto de impaciência e irredutibilidade que só a personalidade sui generis dos cirurgiões mais antigos sabe demonstrar para com o cirurgião mais novo.
Saiba, querido (e agora ex) residente, que só quem foi torturado sabe torturar. E todos os que lhe treinaram, já foram treinados - estiveram no seu lugar - embora queiram sempre passar a impressão de que já nasceram sabendo....
E eu fico aqui pensando, um tanto resignado, se agi ativamente para quebrar esse ciclo aparentemente eterno de estímulo pelo castigo / não-reconhecimento adequado ao mérito.
O ensino médico é apaixonante; treinar o novo cirurgião é quase um vício: uma sensação vaidosa onde um pouquinho de você é parte da formação de alguém (se eu fosse adequadamente remunerado eu só faria isso na minha vida, mas não conte para ninguém).
Hoje você terminou o seu ciclo de formação, e para o bem ou para o mal eu tive uma participação nisso. Você está diferente, mais maduro, mais centrado, com o couro certamente mais "curtido" pelo chicote da responsabilidade. Por vários chicotes.
Você passou mais rápido que o meu tempo.
Eu queria ter tido mais tempo para te acompanhar. Queria ter oferecido talvez mais cirurgias, ou mais conteúdo, ou ainda mais da minha paciência para você, e para mim também, pois saiba que aprendo imensamente nesta troca. Mas o ritmo da vida não é a gente que dita.
Eu cresci e amadureci tendo extrema dificuldade com figuras paternas erráticas. Tenho pai, e também procurei muitos "pais" aonde eles não existiam. Nunca pensei que haveria uma "cura" para essa angústia, para esse sentimento de insegurança constante.
"O que eu faço agora?"
"Para onde eu vou?"
"Como eu faço isso?"
"Está bem assim? Poderia ser melhor?"
"Por que fiz assim e não de outro jeito?"
"Fiz tudo certo, e tudo deu errado... O que acontece?"
"Quero desistir... Não aguento mais... Será que sirvo pra isso?"
"O que você acha disso?"
"Serei bom nisso um dia?
"Não me sinto seguro para fazer isso... Me ajuda?"
Estas foram algumas de suas muitas perguntas para mim nestes dois anos tão longos, tão curtos.
Repare que são as perguntas de um filho para um pai. Eu passei esse tempo todo tentando respondê-las, no melhor que pude, orgulhosamente preenchendo lacunas de mim mesmo.
Você, querido residente, de certa forma, é a minha cura.
Você passou mais rápido que o meu tempo.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

O que eu ganho com isso?

São quase 1h30 da madrugada e estamos terminando a sexta (isto mesmo, sexta) cirurgia do plantão até o momento.

Foram todos procedimentos de urgência, médio a grande porte, que nossa equipe conseguiu realizar com bom resultado para os pacientes.

Exausto, fico pensando se tudo isso vale a pena, a que custo e com qual retorno.

O retorno é imaterial, certamente. Não espero ficar rico ganhando R$ 40 a hora, brutos.

Por outro lado, ganho quando vejo toda a equipe de Enfermagem agilizando os procedimentos no centro cirúrgico.

Ganho também quando a equipe de Anestesia (Juarez Baptista) abraça nossas "encrencas" e confia em nós e nos nossos residentes.

Ganho demais (não sabem o quanto!)  constatando a evolução do futuro cirurgião, residente (R2) Robson Laranja, demonstrando calma, tirocínio, tática e técnica cirúrgica irretocáveis.

Ganho quando descanso com a cabeça tranquila, certo de que nós, cirurgiões, fizemos nosso melhor (Thiago Hassegawa e Saulo Garcez).

Mas ganho muito, e sobretudo, com a melhora da saúde de quem a gente cuidou, sabendo que nossa mão de alguma forma fez parte disso.

E isto tudo não se paga. Não se vende. Não se transfere.

Simplesmente fica.

Pra sempre.

sábado, 20 de setembro de 2014

Trégua

Hoje o bem-te-vi daqui, meu vizinho, se estatelou no vidro da sacada.

Fechamos recentemente nossa varanda, naquele movimento tipicamente paulistano de erguer muros, separar, segregar.

E ele reclamou, gritou,empoleirado na mureta defronte ao vidro impenetrável. Eu, da minha poltrona, fiquei olhando o coitado piar, e ele não piava em "bem-te-vi". Brigava era comigo.

Levantei, abri o vidro e coloquei ali uma laranja partida ao meio, como forma de desculpa e agradecimento.

Bandeira branca.

Mas o compreensível rancor dele não cedeu.

Ficou a laranja. Intocada. E a sacada, semi-aberta.

Esperando as pazes.