É tempo de " eviscerar"...
Em algumas situações, o cirurgião deve abrir o abdome do paciente e "eviscerá-lo". Literalmente: colocar as "tripas para fora", seja para identificar a causa do que ali acontece ou mesmo limpar e lavar uma infecção extremamente grave.
Nesta hora, com o paciente aberto e invariavelmente sob risco de morte, analisando um panorama desolador, a gente se pergunta: o que faço com isso? E agora?
A decisão muitas vezes pode valer a vida.
Observando esta nossa vida que corre, parece que o meio médico (mas não só ele, basta ver o noticiário) está passando por esse momento, um tal de “tempo de eviscerar”.
Toda a nossa podridão moral está sendo exposta. Velhos esquemas estão caindo, com modos de trabalhar sendo rapidamente superados. É um caminho sem volta.
Nossa mesquinhez, vaidade, ganância, incompetência, comodismo e inação, estão sistematicamente sendo desnudados.
Eu conheço o meio médico, e devo confessar que é duríssimo mover-se nele com um mínimo de retidão de caráter e de honestidade. Sofre-se demais. Fico me perguntando todos os dias se vale a pena ser decente.
A coisa começa na faculdade. Se for pública, pior ainda. Professores que nenhum aluno viu, que dão aulas uma vez ao ano, ou nem aparecendo, acumulando cargos e privilégios por amizade e apaniguamento. Confrontados, escondem-se na justificativa dos salários baixos ou no mérito pelo tempo...
Aliás, aprendemos desde o início de nossa formação que ser médico mais antigo confere automaticamente um status de não precisar fazer mais nada. O sangue já foi dado: agora é derramar o dos mais jovens. E essa sistemática vai longe...
Finda a faculdade, vem a prova de especialização, a tão sonhada residência médica. Muitas das provas são cartas marcadas: favorecem determinadas pessoas, com aulas e “dicas” para que alunos sejam aprovados em detrimento de outros.
E que dizer da residência médica em si? Dois a quatro anos de trabalho semi-escravo, vendido ao jovem médico como um “treinamento em serviço”. Este “treinamento” muitas vezes é dado por preceptores psicopatas, sádicos, ou apenas mal educados e mal preparados mesmo.
Faz parte do currículo da residência ter jornadas de trabalho desumanas, em hospitais pútridos e inseguros, sem tempo muitas vezes para comer, tomar banho, escovar os dentes. Os residentes emagrecem, ficam pálidos, adoecem (mas claro que dizem para nós que isso é “necessário” e bem-vindo). Repete-se aqui a sistemática: somos torturados e aceitamos passar por isso pois daqui a um tempo seremos nós os torturadores: um dia estaremos no lugar de nossos chefes. Como quebrar este ciclo?
Terminada a especialização, onde vamos trabalhar? Em empregos que mimetizam a própria residência médica, na mesma pirâmide que pouco se move, onde a regra não é o mérito, mas sim o tempo, as relações de amizade, o apaniguamento, o interesse político e especialmente o econômico.
Entramos na roda viva dos empregos que desafiam a Física: vários ao mesmo tempo. Recebemos benesses de laboratórios, propina de fornecedores de materiais, presentes, mimos, comissões, cargos e “boquinhas” em serviços públicos (aliás nossa realidade no serviço público mereceria uma tese).
Passamos ao largo de juramentos e colocamos nossos interesses pessoais muito acima da ética para com o paciente. Procrastinamos as condutas médicas, mantemos gente internada que não precisa, deixamos de operar, prescrevemos medicações desnecessárias, pedimos exames sem critério algum, ou com critérios pouco abonadores...
Escondemo-nos. Usamos a Medicina como meio, e não como fim. Longe de considerar o médico como um sacerdote, penso que devemos colocar a mão na nossa consciência e reavaliarmos nossas condutas.
E todas estas “tripas podres”, conhecidas há anos, mas fechadas dentro da barriga do nosso corporativismo, estão aos poucos sendo colocadas para fora. Mas muitos de nós, médicos acostumados a antigos paradigmas, não estamos atentos a esta revolução silenciosa.
Eu comemoro. Porém fico, do mesmo jeito que no centro cirúrgico, olhando e me perguntando: O que faremos destas “tripas podres”?
domingo, 21 de junho de 2015
domingo, 3 de maio de 2015
Meu pai emprestado foi-se embora
- Um prato de comida a mais ou a menos, não nos fará mais pobres. Fica sossegado.
E deu de ombros, franzindo a testa, num só movimento, um certo desdém despreocupado.
- Mas... eu não vou dar muito trabalho pra vocês, mesmo?
- Não vai não, Marcos - responde meu tio.
Era o ano de 1996, eu vinha do interior de Santa Catarina, adolescente, caipira e matuto de tudo, para a "grande" capital do Estado, Florianópolis, cursar Medicina.
Iria morar na casa dos meus tios, Helge e Marina. Prometi ficar seis meses. E me deixaram ficar os seis anos, até minha formatura.
Tomei meus tios como meus pais, e acho que eles souberam bem disso. Sem eles, nunca teria sido médico. E como pais que me foram, afortunadamente emprestados, eu os considerava imortais. Pais não deveriam morrer nunca, certo?
Até que um dia, na manhã de uma terça-feira, 28 de abril de 2015, meu pai emprestado se foi. Foi embora para sempre, depois de sofrer alguns dias internado, lutando com complicações de uma cirurgia de câncer de esôfago.
Tio Helge era excêntrico, no senso estrito; extraordinário. Professor universitário, radiestesista, leitor ávido (dois a três livros por mês), de excelente humor, conselheiro ponderado, amigo, confidente, escritor e contador de histórias impagáveis.
Homem de simples trato, era impossível andar em Florianópolis a pé com ele, sem logo ser parado por alguém que o conhecia: "Professor Helge...!" E embarcava num longo bate papo.
Eu ainda não consegui chorar a sua perda. Porque simplesmente não consigo perdê-lo, não quero perdê-lo, não posso perdê-lo, tamanha a importância dele e de minha tia Marina em minha vida.
Para um moleque de 18 anos, cheio de espinhas e vazio de paternidade, que só sabia trabalhar e se sujeitar a "pais" mascarados, alienados e escroques, ele correspondia a muito do que imaginava numa figura de pai. Junto com meu querido avô Alberto, ele foi a figura paterna mais importante para mim.
Aprendi com ele e com minha tia Marina que, ao contrário do que muitos me diziam, e continuariam me dizendo por muito tempo, que a escolha da minha profissão tinha sido acertada: porque era minha, e só minha.
Pela primeira vez na vida eu tive consciência (e apoio) nas minhas escolhas. Meus tios me fizeram enxergar para dentro.
Aprendi que eu não lhes devia nada em troca, nunca. Nem por me sustentarem durante a faculdade. Isso, em outras palavras, significava que amor de verdade não cobra preço algum. É apenas dado. Demorei para entender e me acostumar com isso.
Meu pai emprestado foi-se embora, mas de uma certa forma muito especial ele ficou.
Para sempre.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015
Você passou mais rápido que o meu tempo...
Você passou mais rápido que o meu tempo...
Todo o começo de ano é assim. Você vai embora, e eu continuo aqui. Lembro de quando você chegou no hospital, há dois anos, o jovem "médico residente" (com todas as implicações do termo), o futuro especialista, inexperiente e cheio de expectativas.
Expectativas prontamente frustradas pela aspereza do treinamento cirúrgico. Treinamento que inclui horas em pé, muitas vezes sem dormir, sem comer, sem um banho sequer. Ouvindo, com cara fechada, broncas (de todos os lados), ironias de mau gosto, piadas jocosas, sem falar o tanto de impaciência e irredutibilidade que só a personalidade sui generis dos cirurgiões mais antigos sabe demonstrar para com o cirurgião mais novo.
Saiba, querido (e agora ex) residente, que só quem foi torturado sabe torturar. E todos os que lhe treinaram, já foram treinados - estiveram no seu lugar - embora queiram sempre passar a impressão de que já nasceram sabendo....
E eu fico aqui pensando, um tanto resignado, se agi ativamente para quebrar esse ciclo aparentemente eterno de estímulo pelo castigo / não-reconhecimento adequado ao mérito.
O ensino médico é apaixonante; treinar o novo cirurgião é quase um vício: uma sensação vaidosa onde um pouquinho de você é parte da formação de alguém (se eu fosse adequadamente remunerado eu só faria isso na minha vida, mas não conte para ninguém).
Hoje você terminou o seu ciclo de formação, e para o bem ou para o mal eu tive uma participação nisso. Você está diferente, mais maduro, mais centrado, com o couro certamente mais "curtido" pelo chicote da responsabilidade. Por vários chicotes.
Você passou mais rápido que o meu tempo.
Eu queria ter tido mais tempo para te acompanhar. Queria ter oferecido talvez mais cirurgias, ou mais conteúdo, ou ainda mais da minha paciência para você, e para mim também, pois saiba que aprendo imensamente nesta troca. Mas o ritmo da vida não é a gente que dita.
Eu cresci e amadureci tendo extrema dificuldade com figuras paternas erráticas. Tenho pai, e também procurei muitos "pais" aonde eles não existiam. Nunca pensei que haveria uma "cura" para essa angústia, para esse sentimento de insegurança constante.
"O que eu faço agora?"
"Para onde eu vou?"
"Como eu faço isso?"
"Está bem assim? Poderia ser melhor?"
"Por que fiz assim e não de outro jeito?"
"Fiz tudo certo, e tudo deu errado... O que acontece?"
"Quero desistir... Não aguento mais... Será que sirvo pra isso?"
"O que você acha disso?"
"Serei bom nisso um dia?
"Não me sinto seguro para fazer isso... Me ajuda?"
"Para onde eu vou?"
"Como eu faço isso?"
"Está bem assim? Poderia ser melhor?"
"Por que fiz assim e não de outro jeito?"
"Fiz tudo certo, e tudo deu errado... O que acontece?"
"Quero desistir... Não aguento mais... Será que sirvo pra isso?"
"O que você acha disso?"
"Serei bom nisso um dia?
"Não me sinto seguro para fazer isso... Me ajuda?"
Estas foram algumas de suas muitas perguntas para mim nestes dois anos tão longos, tão curtos.
Repare que são as perguntas de um filho para um pai. Eu passei esse tempo todo tentando respondê-las, no melhor que pude, orgulhosamente preenchendo lacunas de mim mesmo.
Você, querido residente, de certa forma, é a minha cura.
Você passou mais rápido que o meu tempo.
segunda-feira, 29 de setembro de 2014
O que eu ganho com isso?
São quase 1h30 da madrugada e estamos terminando a sexta (isto mesmo, sexta) cirurgia do plantão até o momento.
Foram todos procedimentos de urgência, médio a grande porte, que nossa equipe conseguiu realizar com bom resultado para os pacientes.
Exausto, fico pensando se tudo isso vale a pena, a que custo e com qual retorno.
O retorno é imaterial, certamente. Não espero ficar rico ganhando R$ 40 a hora, brutos.
Por outro lado, ganho quando vejo toda a equipe de Enfermagem agilizando os procedimentos no centro cirúrgico.
Ganho também quando a equipe de Anestesia (Juarez Baptista) abraça nossas "encrencas" e confia em nós e nos nossos residentes.
Ganho demais (não sabem o quanto!) constatando a evolução do futuro cirurgião, residente (R2) Robson Laranja, demonstrando calma, tirocínio, tática e técnica cirúrgica irretocáveis.
Ganho quando descanso com a cabeça tranquila, certo de que nós, cirurgiões, fizemos nosso melhor (Thiago Hassegawa e Saulo Garcez).
Mas ganho muito, e sobretudo, com a melhora da saúde de quem a gente cuidou, sabendo que nossa mão de alguma forma fez parte disso.
E isto tudo não se paga. Não se vende. Não se transfere.
Simplesmente fica.
Pra sempre.
Foram todos procedimentos de urgência, médio a grande porte, que nossa equipe conseguiu realizar com bom resultado para os pacientes.
Exausto, fico pensando se tudo isso vale a pena, a que custo e com qual retorno.
O retorno é imaterial, certamente. Não espero ficar rico ganhando R$ 40 a hora, brutos.
Por outro lado, ganho quando vejo toda a equipe de Enfermagem agilizando os procedimentos no centro cirúrgico.
Ganho também quando a equipe de Anestesia (Juarez Baptista) abraça nossas "encrencas" e confia em nós e nos nossos residentes.
Ganho demais (não sabem o quanto!) constatando a evolução do futuro cirurgião, residente (R2) Robson Laranja, demonstrando calma, tirocínio, tática e técnica cirúrgica irretocáveis.
Ganho quando descanso com a cabeça tranquila, certo de que nós, cirurgiões, fizemos nosso melhor (Thiago Hassegawa e Saulo Garcez).
Mas ganho muito, e sobretudo, com a melhora da saúde de quem a gente cuidou, sabendo que nossa mão de alguma forma fez parte disso.
E isto tudo não se paga. Não se vende. Não se transfere.
Simplesmente fica.
Pra sempre.
sábado, 20 de setembro de 2014
Trégua
Hoje o bem-te-vi daqui, meu vizinho, se estatelou no vidro da sacada.
Fechamos recentemente nossa varanda, naquele movimento tipicamente paulistano de erguer muros, separar, segregar.
E ele reclamou, gritou,empoleirado na mureta defronte ao vidro impenetrável. Eu, da minha poltrona, fiquei olhando o coitado piar, e ele não piava em "bem-te-vi". Brigava era comigo.
Levantei, abri o vidro e coloquei ali uma laranja partida ao meio, como forma de desculpa e agradecimento.
Bandeira branca.
Mas o compreensível rancor dele não cedeu.
Ficou a laranja. Intocada. E a sacada, semi-aberta.
Esperando as pazes.
Fechamos recentemente nossa varanda, naquele movimento tipicamente paulistano de erguer muros, separar, segregar.
E ele reclamou, gritou,empoleirado na mureta defronte ao vidro impenetrável. Eu, da minha poltrona, fiquei olhando o coitado piar, e ele não piava em "bem-te-vi". Brigava era comigo.
Levantei, abri o vidro e coloquei ali uma laranja partida ao meio, como forma de desculpa e agradecimento.
Bandeira branca.
Mas o compreensível rancor dele não cedeu.
Ficou a laranja. Intocada. E a sacada, semi-aberta.
Esperando as pazes.
domingo, 14 de setembro de 2014
Os piores médicos para os médicos
Os piores médicos para os médicos:
1) O médico de "palanque": diz que resolve, e até parece resolver, mas que no frigir dos ovos foge do problema como o diabo da cruz;
2) O médico "bonzinho": aquele que finge bom mocismo, adorado por muitos, e no fundo esconde uma profunda incompetência técnica;
3) O médico de "lousa": no quadro negro parece explicar e fazer tudo perfeitamente. Mas a prática ninguém viu.
4) O médico "caroneiro": embarca no bom resultado de outro colega, e atribui sempre tal resultado à sua presença do banco do carona.
5) O médico "fantasma": faz o trabalho de alguém mais famoso, sem aparecer. Espera um dia ocupar o lugar do seu ídolo, caso ele se aposente ou morra.
6) O médico "eterno júnior": Sofre de baixa auto-estima. Não consegue tomar uma só conduta sozinho, nem mesmo prescrever uma dipirona. Tem uma lista infindável de telefones de colegas mais experientes para poder ajudá-lo inclusive a matar uma barata.
7) O médico "do dia seguinte": tipinho muito prevalente no meio médico. É conhecido pela sigla em inglês DAD (day after doctor): adora atirar pedra na conduta do colega do dia anterior, mesmo que aquele tenha se ferrado sozinho sem nenhum recurso disponível.
8) O médico "estrangeiro": não se adapta a nenhum trabalho, a nenhum serviço. Sente-se um estranho, falando uma língua diferente e superior aos demais, mesmo ganhando em reais e trabalhando em serviço público.
9) O médico "baseado em evidências": tem todos os últimos artigos científicos na ponta da língua, mas não sabe como aplicá-los na realidade brasileira.
10) O médico "capitalista": capitaliza para si o bom resultado da equipe.
11) O médico "socialista": é a outra face da mesma moeda do número 10. Adora socializar seu mau resultado com a equipe.
12) O médico "virtual": adora dar uma opinião grave, contundente, certeira e bem embasada, mas apenas pela internet. Na vida real foge dos problemas reais.
13) O médico "sabe-tudo": não importa a área, a especialidade, a situação. Seu conhecimento transcende os muros da Medicina. De compra de ações na bolsa à reforma de banheiro, passando por escolha de vinho à depilação, ele sempre fez o melhor, o mais fácil, o mais barato, o "mais certo", o que ninguém poderia ter feito.
14) O médico "cara-de-pau": muito conhecido nos meios acadêmicos, nos congressos e reuniões científicas. Ele mente descaradamente. Suas cirurgias nunca complicam, seus resultados são melhores do que qualquer centro de excelência mundial. E, pior, ele acredita nisso.
15) O médico "baba-ovo": este tipo rasteja por entre os empregos sempre procurando alguma teta ou chefe para se apaniguar. Adora um cargo de nome pomposo e inútil, em que se sinta importante e ganhe um troco qualquer.
16) O médico "inconformado": não se conforma em ser de classe média. Ele quer mais. E se acha merecedor de muito mais. Tem carro importado, viaja ao exterior três vezes por ano, tem relógios caros e roupas de grife. Mas pra poder pagar tudo isso vive dando plantão em hospital de periferia.
17) O médico "camaleão": é extremamente educado e gentil com pacientes particulares, cumprindo horários e tendo sempre uma grande disponibilidade de tempo. Exatamente o contrário do que faz no SUS.
18) O médico "senhor de engenho": sua especialidade é "empregar" outros médicos, geralmente mais jovens e inexperientes, relegando-os a uma doce "senzala", com a promessa de que estes colegas um dia irão fazer parte de sua "casa grande".
19) O médico "celebridade" (por Leonardo Salvador Gaspar): posta fotos de artistas atendidos por ele. Vive querendo aparecer na Caras. Adora um camarote. Adora qualquer coisa que tenha "VIP" no nome. Seu grande sonho é ter o seu próprio quadro num programa matinal de TV, onde aparece sorridente de jaleco, falando sobre tudo e sobre nada.
20) O médico "institucionalizado": ele não é uma pessoa; ele é uma instituição de nome e logotipo bordados no seu jaleco. Não importa o que ele faça lá, às vezes só mora perto de um hospital famoso. Mas se diz parte daquilo o tempo todo e usa esse mesmo jaleco até ficar encardido.
21) O médico "plantonista": muito comum no serviço público, vive com vários empregos e esquemas de plantão. Atender um paciente é "tocar uma ficha". Programa seus gastos conforme o número de plantões que dá. Seu carro é uma extensão da sua casa, cheio de mudas de roupas e crachás de estacionamento de diferentes hospitais.
22) O médico "faz favor": sempre lembrado por fazer encaixes de última hora, dar atestados, repetir receitas e pedir exames para parentes distantes. Ninguém se dá conta que é médico e ele nem se importa com isso. Geralmente bem quisto.
23) O médico "estrela": o paciente deve agradecer todos os dias de sua vida por ter sido atendido um dia por ele, mesmo que pagando caro. Mesmo que rapidamente. Mesmo que entre duas ligações de celular importantes. Mesmo sem ter seu problema resolvido.
PS: A combinação, no mesmo médico, de dois ou mais tipos acima, pode ser extremamente aborrecida (e frequente).
1) O médico de "palanque": diz que resolve, e até parece resolver, mas que no frigir dos ovos foge do problema como o diabo da cruz;
2) O médico "bonzinho": aquele que finge bom mocismo, adorado por muitos, e no fundo esconde uma profunda incompetência técnica;
3) O médico de "lousa": no quadro negro parece explicar e fazer tudo perfeitamente. Mas a prática ninguém viu.
4) O médico "caroneiro": embarca no bom resultado de outro colega, e atribui sempre tal resultado à sua presença do banco do carona.
5) O médico "fantasma": faz o trabalho de alguém mais famoso, sem aparecer. Espera um dia ocupar o lugar do seu ídolo, caso ele se aposente ou morra.
6) O médico "eterno júnior": Sofre de baixa auto-estima. Não consegue tomar uma só conduta sozinho, nem mesmo prescrever uma dipirona. Tem uma lista infindável de telefones de colegas mais experientes para poder ajudá-lo inclusive a matar uma barata.
7) O médico "do dia seguinte": tipinho muito prevalente no meio médico. É conhecido pela sigla em inglês DAD (day after doctor): adora atirar pedra na conduta do colega do dia anterior, mesmo que aquele tenha se ferrado sozinho sem nenhum recurso disponível.
8) O médico "estrangeiro": não se adapta a nenhum trabalho, a nenhum serviço. Sente-se um estranho, falando uma língua diferente e superior aos demais, mesmo ganhando em reais e trabalhando em serviço público.
9) O médico "baseado em evidências": tem todos os últimos artigos científicos na ponta da língua, mas não sabe como aplicá-los na realidade brasileira.
10) O médico "capitalista": capitaliza para si o bom resultado da equipe.
11) O médico "socialista": é a outra face da mesma moeda do número 10. Adora socializar seu mau resultado com a equipe.
12) O médico "virtual": adora dar uma opinião grave, contundente, certeira e bem embasada, mas apenas pela internet. Na vida real foge dos problemas reais.
13) O médico "sabe-tudo": não importa a área, a especialidade, a situação. Seu conhecimento transcende os muros da Medicina. De compra de ações na bolsa à reforma de banheiro, passando por escolha de vinho à depilação, ele sempre fez o melhor, o mais fácil, o mais barato, o "mais certo", o que ninguém poderia ter feito.
14) O médico "cara-de-pau": muito conhecido nos meios acadêmicos, nos congressos e reuniões científicas. Ele mente descaradamente. Suas cirurgias nunca complicam, seus resultados são melhores do que qualquer centro de excelência mundial. E, pior, ele acredita nisso.
15) O médico "baba-ovo": este tipo rasteja por entre os empregos sempre procurando alguma teta ou chefe para se apaniguar. Adora um cargo de nome pomposo e inútil, em que se sinta importante e ganhe um troco qualquer.
16) O médico "inconformado": não se conforma em ser de classe média. Ele quer mais. E se acha merecedor de muito mais. Tem carro importado, viaja ao exterior três vezes por ano, tem relógios caros e roupas de grife. Mas pra poder pagar tudo isso vive dando plantão em hospital de periferia.
17) O médico "camaleão": é extremamente educado e gentil com pacientes particulares, cumprindo horários e tendo sempre uma grande disponibilidade de tempo. Exatamente o contrário do que faz no SUS.
18) O médico "senhor de engenho": sua especialidade é "empregar" outros médicos, geralmente mais jovens e inexperientes, relegando-os a uma doce "senzala", com a promessa de que estes colegas um dia irão fazer parte de sua "casa grande".
19) O médico "celebridade" (por Leonardo Salvador Gaspar): posta fotos de artistas atendidos por ele. Vive querendo aparecer na Caras. Adora um camarote. Adora qualquer coisa que tenha "VIP" no nome. Seu grande sonho é ter o seu próprio quadro num programa matinal de TV, onde aparece sorridente de jaleco, falando sobre tudo e sobre nada.
20) O médico "institucionalizado": ele não é uma pessoa; ele é uma instituição de nome e logotipo bordados no seu jaleco. Não importa o que ele faça lá, às vezes só mora perto de um hospital famoso. Mas se diz parte daquilo o tempo todo e usa esse mesmo jaleco até ficar encardido.
21) O médico "plantonista": muito comum no serviço público, vive com vários empregos e esquemas de plantão. Atender um paciente é "tocar uma ficha". Programa seus gastos conforme o número de plantões que dá. Seu carro é uma extensão da sua casa, cheio de mudas de roupas e crachás de estacionamento de diferentes hospitais.
22) O médico "faz favor": sempre lembrado por fazer encaixes de última hora, dar atestados, repetir receitas e pedir exames para parentes distantes. Ninguém se dá conta que é médico e ele nem se importa com isso. Geralmente bem quisto.
23) O médico "estrela": o paciente deve agradecer todos os dias de sua vida por ter sido atendido um dia por ele, mesmo que pagando caro. Mesmo que rapidamente. Mesmo que entre duas ligações de celular importantes. Mesmo sem ter seu problema resolvido.
PS: A combinação, no mesmo médico, de dois ou mais tipos acima, pode ser extremamente aborrecida (e frequente).
segunda-feira, 4 de agosto de 2014
Homo sapiens? Não, Homo desconexus
Surge uma nova espécie de gente: o Homo desconexus
Morar numa cidade neurotizante como São Paulo exige uma disciplina rígida para que a metrópole não te engula por completo. Do contrário, passamos a viver como a nova horda de hominídeos que há sete ou oito anos vejo crescer rapidamente por aqui: chamo de Homo desconexus, ou o homem desconectado.
Ao contrário do que eu imaginava, o excesso de informações da aldeia global veio revelar (e não criar) esta espécie. Embora hiperconectados com o mundo exterior, estamos cada vez mais desconectados de nós mesmos. Vou tentar explicar com o que vejo no cotidiano.
O Homo desconexus nunca está fazendo uma coisa só. Aliás, ele não consegue se concentrar em fazer uma coisa apenas, e no fundo não faz nada realmente direito do que se propõe a fazer.
Caminhar, por exemplo. Munido de seu smartphone, tablet ou qualquer coisa que o valha, não presta atenção na caminhada. Tropeça, anda ou devagar ou muito rápido, esbarra nos outros de sua espécie sem pedir desculpas (o esbarrar virou coisa normal). Geralmente passa do ponto onde gostaria de ir e não reconhece onde está quando pára a olhar o movimento.
Parado no trânsito, isolado no seu carro fechado, cheio de ar condicionado, escuta a rádio que lhe fala histericamente demais, e fala de mais... trânsito. Ou de notícias importantes como a queda na Bolsa da Sérvia ou do novo namorado da atriz do momento.
Tal espécie conversa sempre com dois de seus pares ao mesmo tempo, e pode interromper uma conversa no meio de outra, sem cerimônia. Como nunca presta atenção, apenas nas duas ou três últimas palavras, fica impaciente para desligar e continuar a outra não-conversa. Muitas vezes liga novamente para saber o que "conversou".
Quando te encontra no elevador, faz questão de baixar a cabeça ou olhar para o teto. Quando muito, fala do tempo.
No restaurante, na reunião, no boteco ou no aniversário, chega atrasado sempre. No fundo acha bonito isso, considera-se um ocupado importante.
Não olha para quem o serve, não olha para a própria comida, não olha para o interlocutor. E fala de trabalho, de dinheiro, de carro importado, mostra o celular de última geração, e coloca tudo isso nas redes sociais.
Não se importa com a comida ruim, ou se o vinho é caro e nacional, se a mesa ao lado está a apenas 15 cm dele com gente tão próxima e tão distante.
O Homo desconexus é impaciente, mas seletivamente. Embora demonstre pressa para tudo, reserva sua ira para os momentos mais singelos: a fila do "valet", o caixa do supermercado, a consulta médica, o aeroporto e o cinema.
Aliás, a consulta médica nem mais se inicia com um pedido de desculpas por falar ao telefone. Porque falar ao telefone já é corriqueiro. E interromper a consulta para atender ao telefone também o é.
E o cinema virou o lugar mais imprescindível do mundo para se comer pipoca - de boca aberta.
Ele é, por excelência, um pagador de contas. São tantas e tão diversas que nem sabe direito e estão sempre a vários passos a frente: isso significa dizer que as férias de dois anos atrás estão sendo pagas ainda.
Sua casa sempre tem algo por fazer. Nunca termina uma reforma, não conserta aquele vazamento, não troca sofá velho e puído. Não porque não tenha dinheiro, mas porque não tem quem o faça. E se tiver alguém que o faça, não será ele - sua casa é nada mais que dormitório, e dos caros. A cozinha é um cômodo incômodo: o interior da geladeira é uma incógnita, lugar seguro para se guardar um cadáver.
Embora não reconheça, os "outros" da mesma espécie têm papel relevante na sua vida, estando sempre à espreita: julgando sua roupa, seus sapatos, suas atitudes e sua barriga; tendo cônjuges, casas e carros melhores, férias mais espetaculares e bebidas mais excêntricas e fotogênicas, barrigas mais chapadas e durinhas.
O Homo desconexus é um reclamador por natureza. Reclama que não tem tempo para nada, que deveria se alimentar melhor, que paga academia e convênio médico caros para nunca usar. Suspeita que seu dia tem menos horas que os dos outros, porque sempre trabalha demais.
E assim vive, sobrevivendo, a reboque de sabe-se-lá-o-quê, sem meio e sem fim.
Morar numa cidade neurotizante como São Paulo exige uma disciplina rígida para que a metrópole não te engula por completo. Do contrário, passamos a viver como a nova horda de hominídeos que há sete ou oito anos vejo crescer rapidamente por aqui: chamo de Homo desconexus, ou o homem desconectado.
Ao contrário do que eu imaginava, o excesso de informações da aldeia global veio revelar (e não criar) esta espécie. Embora hiperconectados com o mundo exterior, estamos cada vez mais desconectados de nós mesmos. Vou tentar explicar com o que vejo no cotidiano.
O Homo desconexus nunca está fazendo uma coisa só. Aliás, ele não consegue se concentrar em fazer uma coisa apenas, e no fundo não faz nada realmente direito do que se propõe a fazer.
Caminhar, por exemplo. Munido de seu smartphone, tablet ou qualquer coisa que o valha, não presta atenção na caminhada. Tropeça, anda ou devagar ou muito rápido, esbarra nos outros de sua espécie sem pedir desculpas (o esbarrar virou coisa normal). Geralmente passa do ponto onde gostaria de ir e não reconhece onde está quando pára a olhar o movimento.
Parado no trânsito, isolado no seu carro fechado, cheio de ar condicionado, escuta a rádio que lhe fala histericamente demais, e fala de mais... trânsito. Ou de notícias importantes como a queda na Bolsa da Sérvia ou do novo namorado da atriz do momento.
Tal espécie conversa sempre com dois de seus pares ao mesmo tempo, e pode interromper uma conversa no meio de outra, sem cerimônia. Como nunca presta atenção, apenas nas duas ou três últimas palavras, fica impaciente para desligar e continuar a outra não-conversa. Muitas vezes liga novamente para saber o que "conversou".
Quando te encontra no elevador, faz questão de baixar a cabeça ou olhar para o teto. Quando muito, fala do tempo.
No restaurante, na reunião, no boteco ou no aniversário, chega atrasado sempre. No fundo acha bonito isso, considera-se um ocupado importante.
Não olha para quem o serve, não olha para a própria comida, não olha para o interlocutor. E fala de trabalho, de dinheiro, de carro importado, mostra o celular de última geração, e coloca tudo isso nas redes sociais.
Não se importa com a comida ruim, ou se o vinho é caro e nacional, se a mesa ao lado está a apenas 15 cm dele com gente tão próxima e tão distante.
O Homo desconexus é impaciente, mas seletivamente. Embora demonstre pressa para tudo, reserva sua ira para os momentos mais singelos: a fila do "valet", o caixa do supermercado, a consulta médica, o aeroporto e o cinema.
Aliás, a consulta médica nem mais se inicia com um pedido de desculpas por falar ao telefone. Porque falar ao telefone já é corriqueiro. E interromper a consulta para atender ao telefone também o é.
E o cinema virou o lugar mais imprescindível do mundo para se comer pipoca - de boca aberta.
Ele é, por excelência, um pagador de contas. São tantas e tão diversas que nem sabe direito e estão sempre a vários passos a frente: isso significa dizer que as férias de dois anos atrás estão sendo pagas ainda.
Sua casa sempre tem algo por fazer. Nunca termina uma reforma, não conserta aquele vazamento, não troca sofá velho e puído. Não porque não tenha dinheiro, mas porque não tem quem o faça. E se tiver alguém que o faça, não será ele - sua casa é nada mais que dormitório, e dos caros. A cozinha é um cômodo incômodo: o interior da geladeira é uma incógnita, lugar seguro para se guardar um cadáver.
Embora não reconheça, os "outros" da mesma espécie têm papel relevante na sua vida, estando sempre à espreita: julgando sua roupa, seus sapatos, suas atitudes e sua barriga; tendo cônjuges, casas e carros melhores, férias mais espetaculares e bebidas mais excêntricas e fotogênicas, barrigas mais chapadas e durinhas.
O Homo desconexus é um reclamador por natureza. Reclama que não tem tempo para nada, que deveria se alimentar melhor, que paga academia e convênio médico caros para nunca usar. Suspeita que seu dia tem menos horas que os dos outros, porque sempre trabalha demais.
E assim vive, sobrevivendo, a reboque de sabe-se-lá-o-quê, sem meio e sem fim.
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