São quase 1h30 da madrugada e estamos terminando a sexta (isto mesmo, sexta) cirurgia do plantão até o momento.
Foram todos procedimentos de urgência, médio a grande porte, que nossa equipe conseguiu realizar com bom resultado para os pacientes.
Exausto, fico pensando se tudo isso vale a pena, a que custo e com qual retorno.
O retorno é imaterial, certamente. Não espero ficar rico ganhando R$ 40 a hora, brutos.
Por outro lado, ganho quando vejo toda a equipe de Enfermagem agilizando os procedimentos no centro cirúrgico.
Ganho também quando a equipe de Anestesia (Juarez Baptista) abraça nossas "encrencas" e confia em nós e nos nossos residentes.
Ganho demais (não sabem o quanto!) constatando a evolução do futuro cirurgião, residente (R2) Robson Laranja, demonstrando calma, tirocínio, tática e técnica cirúrgica irretocáveis.
Ganho quando descanso com a cabeça tranquila, certo de que nós, cirurgiões, fizemos nosso melhor (Thiago Hassegawa e Saulo Garcez).
Mas ganho muito, e sobretudo, com a melhora da saúde de quem a gente cuidou, sabendo que nossa mão de alguma forma fez parte disso.
E isto tudo não se paga. Não se vende. Não se transfere.
Simplesmente fica.
Pra sempre.
segunda-feira, 29 de setembro de 2014
sábado, 20 de setembro de 2014
Trégua
Hoje o bem-te-vi daqui, meu vizinho, se estatelou no vidro da sacada.
Fechamos recentemente nossa varanda, naquele movimento tipicamente paulistano de erguer muros, separar, segregar.
E ele reclamou, gritou,empoleirado na mureta defronte ao vidro impenetrável. Eu, da minha poltrona, fiquei olhando o coitado piar, e ele não piava em "bem-te-vi". Brigava era comigo.
Levantei, abri o vidro e coloquei ali uma laranja partida ao meio, como forma de desculpa e agradecimento.
Bandeira branca.
Mas o compreensível rancor dele não cedeu.
Ficou a laranja. Intocada. E a sacada, semi-aberta.
Esperando as pazes.
Fechamos recentemente nossa varanda, naquele movimento tipicamente paulistano de erguer muros, separar, segregar.
E ele reclamou, gritou,empoleirado na mureta defronte ao vidro impenetrável. Eu, da minha poltrona, fiquei olhando o coitado piar, e ele não piava em "bem-te-vi". Brigava era comigo.
Levantei, abri o vidro e coloquei ali uma laranja partida ao meio, como forma de desculpa e agradecimento.
Bandeira branca.
Mas o compreensível rancor dele não cedeu.
Ficou a laranja. Intocada. E a sacada, semi-aberta.
Esperando as pazes.
domingo, 14 de setembro de 2014
Os piores médicos para os médicos
Os piores médicos para os médicos:
1) O médico de "palanque": diz que resolve, e até parece resolver, mas que no frigir dos ovos foge do problema como o diabo da cruz;
2) O médico "bonzinho": aquele que finge bom mocismo, adorado por muitos, e no fundo esconde uma profunda incompetência técnica;
3) O médico de "lousa": no quadro negro parece explicar e fazer tudo perfeitamente. Mas a prática ninguém viu.
4) O médico "caroneiro": embarca no bom resultado de outro colega, e atribui sempre tal resultado à sua presença do banco do carona.
5) O médico "fantasma": faz o trabalho de alguém mais famoso, sem aparecer. Espera um dia ocupar o lugar do seu ídolo, caso ele se aposente ou morra.
6) O médico "eterno júnior": Sofre de baixa auto-estima. Não consegue tomar uma só conduta sozinho, nem mesmo prescrever uma dipirona. Tem uma lista infindável de telefones de colegas mais experientes para poder ajudá-lo inclusive a matar uma barata.
7) O médico "do dia seguinte": tipinho muito prevalente no meio médico. É conhecido pela sigla em inglês DAD (day after doctor): adora atirar pedra na conduta do colega do dia anterior, mesmo que aquele tenha se ferrado sozinho sem nenhum recurso disponível.
8) O médico "estrangeiro": não se adapta a nenhum trabalho, a nenhum serviço. Sente-se um estranho, falando uma língua diferente e superior aos demais, mesmo ganhando em reais e trabalhando em serviço público.
9) O médico "baseado em evidências": tem todos os últimos artigos científicos na ponta da língua, mas não sabe como aplicá-los na realidade brasileira.
10) O médico "capitalista": capitaliza para si o bom resultado da equipe.
11) O médico "socialista": é a outra face da mesma moeda do número 10. Adora socializar seu mau resultado com a equipe.
12) O médico "virtual": adora dar uma opinião grave, contundente, certeira e bem embasada, mas apenas pela internet. Na vida real foge dos problemas reais.
13) O médico "sabe-tudo": não importa a área, a especialidade, a situação. Seu conhecimento transcende os muros da Medicina. De compra de ações na bolsa à reforma de banheiro, passando por escolha de vinho à depilação, ele sempre fez o melhor, o mais fácil, o mais barato, o "mais certo", o que ninguém poderia ter feito.
14) O médico "cara-de-pau": muito conhecido nos meios acadêmicos, nos congressos e reuniões científicas. Ele mente descaradamente. Suas cirurgias nunca complicam, seus resultados são melhores do que qualquer centro de excelência mundial. E, pior, ele acredita nisso.
15) O médico "baba-ovo": este tipo rasteja por entre os empregos sempre procurando alguma teta ou chefe para se apaniguar. Adora um cargo de nome pomposo e inútil, em que se sinta importante e ganhe um troco qualquer.
16) O médico "inconformado": não se conforma em ser de classe média. Ele quer mais. E se acha merecedor de muito mais. Tem carro importado, viaja ao exterior três vezes por ano, tem relógios caros e roupas de grife. Mas pra poder pagar tudo isso vive dando plantão em hospital de periferia.
17) O médico "camaleão": é extremamente educado e gentil com pacientes particulares, cumprindo horários e tendo sempre uma grande disponibilidade de tempo. Exatamente o contrário do que faz no SUS.
18) O médico "senhor de engenho": sua especialidade é "empregar" outros médicos, geralmente mais jovens e inexperientes, relegando-os a uma doce "senzala", com a promessa de que estes colegas um dia irão fazer parte de sua "casa grande".
19) O médico "celebridade" (por Leonardo Salvador Gaspar): posta fotos de artistas atendidos por ele. Vive querendo aparecer na Caras. Adora um camarote. Adora qualquer coisa que tenha "VIP" no nome. Seu grande sonho é ter o seu próprio quadro num programa matinal de TV, onde aparece sorridente de jaleco, falando sobre tudo e sobre nada.
20) O médico "institucionalizado": ele não é uma pessoa; ele é uma instituição de nome e logotipo bordados no seu jaleco. Não importa o que ele faça lá, às vezes só mora perto de um hospital famoso. Mas se diz parte daquilo o tempo todo e usa esse mesmo jaleco até ficar encardido.
21) O médico "plantonista": muito comum no serviço público, vive com vários empregos e esquemas de plantão. Atender um paciente é "tocar uma ficha". Programa seus gastos conforme o número de plantões que dá. Seu carro é uma extensão da sua casa, cheio de mudas de roupas e crachás de estacionamento de diferentes hospitais.
22) O médico "faz favor": sempre lembrado por fazer encaixes de última hora, dar atestados, repetir receitas e pedir exames para parentes distantes. Ninguém se dá conta que é médico e ele nem se importa com isso. Geralmente bem quisto.
23) O médico "estrela": o paciente deve agradecer todos os dias de sua vida por ter sido atendido um dia por ele, mesmo que pagando caro. Mesmo que rapidamente. Mesmo que entre duas ligações de celular importantes. Mesmo sem ter seu problema resolvido.
PS: A combinação, no mesmo médico, de dois ou mais tipos acima, pode ser extremamente aborrecida (e frequente).
1) O médico de "palanque": diz que resolve, e até parece resolver, mas que no frigir dos ovos foge do problema como o diabo da cruz;
2) O médico "bonzinho": aquele que finge bom mocismo, adorado por muitos, e no fundo esconde uma profunda incompetência técnica;
3) O médico de "lousa": no quadro negro parece explicar e fazer tudo perfeitamente. Mas a prática ninguém viu.
4) O médico "caroneiro": embarca no bom resultado de outro colega, e atribui sempre tal resultado à sua presença do banco do carona.
5) O médico "fantasma": faz o trabalho de alguém mais famoso, sem aparecer. Espera um dia ocupar o lugar do seu ídolo, caso ele se aposente ou morra.
6) O médico "eterno júnior": Sofre de baixa auto-estima. Não consegue tomar uma só conduta sozinho, nem mesmo prescrever uma dipirona. Tem uma lista infindável de telefones de colegas mais experientes para poder ajudá-lo inclusive a matar uma barata.
7) O médico "do dia seguinte": tipinho muito prevalente no meio médico. É conhecido pela sigla em inglês DAD (day after doctor): adora atirar pedra na conduta do colega do dia anterior, mesmo que aquele tenha se ferrado sozinho sem nenhum recurso disponível.
8) O médico "estrangeiro": não se adapta a nenhum trabalho, a nenhum serviço. Sente-se um estranho, falando uma língua diferente e superior aos demais, mesmo ganhando em reais e trabalhando em serviço público.
9) O médico "baseado em evidências": tem todos os últimos artigos científicos na ponta da língua, mas não sabe como aplicá-los na realidade brasileira.
10) O médico "capitalista": capitaliza para si o bom resultado da equipe.
11) O médico "socialista": é a outra face da mesma moeda do número 10. Adora socializar seu mau resultado com a equipe.
12) O médico "virtual": adora dar uma opinião grave, contundente, certeira e bem embasada, mas apenas pela internet. Na vida real foge dos problemas reais.
13) O médico "sabe-tudo": não importa a área, a especialidade, a situação. Seu conhecimento transcende os muros da Medicina. De compra de ações na bolsa à reforma de banheiro, passando por escolha de vinho à depilação, ele sempre fez o melhor, o mais fácil, o mais barato, o "mais certo", o que ninguém poderia ter feito.
14) O médico "cara-de-pau": muito conhecido nos meios acadêmicos, nos congressos e reuniões científicas. Ele mente descaradamente. Suas cirurgias nunca complicam, seus resultados são melhores do que qualquer centro de excelência mundial. E, pior, ele acredita nisso.
15) O médico "baba-ovo": este tipo rasteja por entre os empregos sempre procurando alguma teta ou chefe para se apaniguar. Adora um cargo de nome pomposo e inútil, em que se sinta importante e ganhe um troco qualquer.
16) O médico "inconformado": não se conforma em ser de classe média. Ele quer mais. E se acha merecedor de muito mais. Tem carro importado, viaja ao exterior três vezes por ano, tem relógios caros e roupas de grife. Mas pra poder pagar tudo isso vive dando plantão em hospital de periferia.
17) O médico "camaleão": é extremamente educado e gentil com pacientes particulares, cumprindo horários e tendo sempre uma grande disponibilidade de tempo. Exatamente o contrário do que faz no SUS.
18) O médico "senhor de engenho": sua especialidade é "empregar" outros médicos, geralmente mais jovens e inexperientes, relegando-os a uma doce "senzala", com a promessa de que estes colegas um dia irão fazer parte de sua "casa grande".
19) O médico "celebridade" (por Leonardo Salvador Gaspar): posta fotos de artistas atendidos por ele. Vive querendo aparecer na Caras. Adora um camarote. Adora qualquer coisa que tenha "VIP" no nome. Seu grande sonho é ter o seu próprio quadro num programa matinal de TV, onde aparece sorridente de jaleco, falando sobre tudo e sobre nada.
20) O médico "institucionalizado": ele não é uma pessoa; ele é uma instituição de nome e logotipo bordados no seu jaleco. Não importa o que ele faça lá, às vezes só mora perto de um hospital famoso. Mas se diz parte daquilo o tempo todo e usa esse mesmo jaleco até ficar encardido.
21) O médico "plantonista": muito comum no serviço público, vive com vários empregos e esquemas de plantão. Atender um paciente é "tocar uma ficha". Programa seus gastos conforme o número de plantões que dá. Seu carro é uma extensão da sua casa, cheio de mudas de roupas e crachás de estacionamento de diferentes hospitais.
22) O médico "faz favor": sempre lembrado por fazer encaixes de última hora, dar atestados, repetir receitas e pedir exames para parentes distantes. Ninguém se dá conta que é médico e ele nem se importa com isso. Geralmente bem quisto.
23) O médico "estrela": o paciente deve agradecer todos os dias de sua vida por ter sido atendido um dia por ele, mesmo que pagando caro. Mesmo que rapidamente. Mesmo que entre duas ligações de celular importantes. Mesmo sem ter seu problema resolvido.
PS: A combinação, no mesmo médico, de dois ou mais tipos acima, pode ser extremamente aborrecida (e frequente).
segunda-feira, 4 de agosto de 2014
Homo sapiens? Não, Homo desconexus
Surge uma nova espécie de gente: o Homo desconexus
Morar numa cidade neurotizante como São Paulo exige uma disciplina rígida para que a metrópole não te engula por completo. Do contrário, passamos a viver como a nova horda de hominídeos que há sete ou oito anos vejo crescer rapidamente por aqui: chamo de Homo desconexus, ou o homem desconectado.
Ao contrário do que eu imaginava, o excesso de informações da aldeia global veio revelar (e não criar) esta espécie. Embora hiperconectados com o mundo exterior, estamos cada vez mais desconectados de nós mesmos. Vou tentar explicar com o que vejo no cotidiano.
O Homo desconexus nunca está fazendo uma coisa só. Aliás, ele não consegue se concentrar em fazer uma coisa apenas, e no fundo não faz nada realmente direito do que se propõe a fazer.
Caminhar, por exemplo. Munido de seu smartphone, tablet ou qualquer coisa que o valha, não presta atenção na caminhada. Tropeça, anda ou devagar ou muito rápido, esbarra nos outros de sua espécie sem pedir desculpas (o esbarrar virou coisa normal). Geralmente passa do ponto onde gostaria de ir e não reconhece onde está quando pára a olhar o movimento.
Parado no trânsito, isolado no seu carro fechado, cheio de ar condicionado, escuta a rádio que lhe fala histericamente demais, e fala de mais... trânsito. Ou de notícias importantes como a queda na Bolsa da Sérvia ou do novo namorado da atriz do momento.
Tal espécie conversa sempre com dois de seus pares ao mesmo tempo, e pode interromper uma conversa no meio de outra, sem cerimônia. Como nunca presta atenção, apenas nas duas ou três últimas palavras, fica impaciente para desligar e continuar a outra não-conversa. Muitas vezes liga novamente para saber o que "conversou".
Quando te encontra no elevador, faz questão de baixar a cabeça ou olhar para o teto. Quando muito, fala do tempo.
No restaurante, na reunião, no boteco ou no aniversário, chega atrasado sempre. No fundo acha bonito isso, considera-se um ocupado importante.
Não olha para quem o serve, não olha para a própria comida, não olha para o interlocutor. E fala de trabalho, de dinheiro, de carro importado, mostra o celular de última geração, e coloca tudo isso nas redes sociais.
Não se importa com a comida ruim, ou se o vinho é caro e nacional, se a mesa ao lado está a apenas 15 cm dele com gente tão próxima e tão distante.
O Homo desconexus é impaciente, mas seletivamente. Embora demonstre pressa para tudo, reserva sua ira para os momentos mais singelos: a fila do "valet", o caixa do supermercado, a consulta médica, o aeroporto e o cinema.
Aliás, a consulta médica nem mais se inicia com um pedido de desculpas por falar ao telefone. Porque falar ao telefone já é corriqueiro. E interromper a consulta para atender ao telefone também o é.
E o cinema virou o lugar mais imprescindível do mundo para se comer pipoca - de boca aberta.
Ele é, por excelência, um pagador de contas. São tantas e tão diversas que nem sabe direito e estão sempre a vários passos a frente: isso significa dizer que as férias de dois anos atrás estão sendo pagas ainda.
Sua casa sempre tem algo por fazer. Nunca termina uma reforma, não conserta aquele vazamento, não troca sofá velho e puído. Não porque não tenha dinheiro, mas porque não tem quem o faça. E se tiver alguém que o faça, não será ele - sua casa é nada mais que dormitório, e dos caros. A cozinha é um cômodo incômodo: o interior da geladeira é uma incógnita, lugar seguro para se guardar um cadáver.
Embora não reconheça, os "outros" da mesma espécie têm papel relevante na sua vida, estando sempre à espreita: julgando sua roupa, seus sapatos, suas atitudes e sua barriga; tendo cônjuges, casas e carros melhores, férias mais espetaculares e bebidas mais excêntricas e fotogênicas, barrigas mais chapadas e durinhas.
O Homo desconexus é um reclamador por natureza. Reclama que não tem tempo para nada, que deveria se alimentar melhor, que paga academia e convênio médico caros para nunca usar. Suspeita que seu dia tem menos horas que os dos outros, porque sempre trabalha demais.
E assim vive, sobrevivendo, a reboque de sabe-se-lá-o-quê, sem meio e sem fim.
Morar numa cidade neurotizante como São Paulo exige uma disciplina rígida para que a metrópole não te engula por completo. Do contrário, passamos a viver como a nova horda de hominídeos que há sete ou oito anos vejo crescer rapidamente por aqui: chamo de Homo desconexus, ou o homem desconectado.
Ao contrário do que eu imaginava, o excesso de informações da aldeia global veio revelar (e não criar) esta espécie. Embora hiperconectados com o mundo exterior, estamos cada vez mais desconectados de nós mesmos. Vou tentar explicar com o que vejo no cotidiano.
O Homo desconexus nunca está fazendo uma coisa só. Aliás, ele não consegue se concentrar em fazer uma coisa apenas, e no fundo não faz nada realmente direito do que se propõe a fazer.
Caminhar, por exemplo. Munido de seu smartphone, tablet ou qualquer coisa que o valha, não presta atenção na caminhada. Tropeça, anda ou devagar ou muito rápido, esbarra nos outros de sua espécie sem pedir desculpas (o esbarrar virou coisa normal). Geralmente passa do ponto onde gostaria de ir e não reconhece onde está quando pára a olhar o movimento.
Parado no trânsito, isolado no seu carro fechado, cheio de ar condicionado, escuta a rádio que lhe fala histericamente demais, e fala de mais... trânsito. Ou de notícias importantes como a queda na Bolsa da Sérvia ou do novo namorado da atriz do momento.
Tal espécie conversa sempre com dois de seus pares ao mesmo tempo, e pode interromper uma conversa no meio de outra, sem cerimônia. Como nunca presta atenção, apenas nas duas ou três últimas palavras, fica impaciente para desligar e continuar a outra não-conversa. Muitas vezes liga novamente para saber o que "conversou".
Quando te encontra no elevador, faz questão de baixar a cabeça ou olhar para o teto. Quando muito, fala do tempo.
No restaurante, na reunião, no boteco ou no aniversário, chega atrasado sempre. No fundo acha bonito isso, considera-se um ocupado importante.
Não olha para quem o serve, não olha para a própria comida, não olha para o interlocutor. E fala de trabalho, de dinheiro, de carro importado, mostra o celular de última geração, e coloca tudo isso nas redes sociais.
Não se importa com a comida ruim, ou se o vinho é caro e nacional, se a mesa ao lado está a apenas 15 cm dele com gente tão próxima e tão distante.
O Homo desconexus é impaciente, mas seletivamente. Embora demonstre pressa para tudo, reserva sua ira para os momentos mais singelos: a fila do "valet", o caixa do supermercado, a consulta médica, o aeroporto e o cinema.
Aliás, a consulta médica nem mais se inicia com um pedido de desculpas por falar ao telefone. Porque falar ao telefone já é corriqueiro. E interromper a consulta para atender ao telefone também o é.
E o cinema virou o lugar mais imprescindível do mundo para se comer pipoca - de boca aberta.
Ele é, por excelência, um pagador de contas. São tantas e tão diversas que nem sabe direito e estão sempre a vários passos a frente: isso significa dizer que as férias de dois anos atrás estão sendo pagas ainda.
Sua casa sempre tem algo por fazer. Nunca termina uma reforma, não conserta aquele vazamento, não troca sofá velho e puído. Não porque não tenha dinheiro, mas porque não tem quem o faça. E se tiver alguém que o faça, não será ele - sua casa é nada mais que dormitório, e dos caros. A cozinha é um cômodo incômodo: o interior da geladeira é uma incógnita, lugar seguro para se guardar um cadáver.
Embora não reconheça, os "outros" da mesma espécie têm papel relevante na sua vida, estando sempre à espreita: julgando sua roupa, seus sapatos, suas atitudes e sua barriga; tendo cônjuges, casas e carros melhores, férias mais espetaculares e bebidas mais excêntricas e fotogênicas, barrigas mais chapadas e durinhas.
O Homo desconexus é um reclamador por natureza. Reclama que não tem tempo para nada, que deveria se alimentar melhor, que paga academia e convênio médico caros para nunca usar. Suspeita que seu dia tem menos horas que os dos outros, porque sempre trabalha demais.
E assim vive, sobrevivendo, a reboque de sabe-se-lá-o-quê, sem meio e sem fim.
sexta-feira, 25 de julho de 2014
Carta aberta ao Papai Noel (2012)
Prezado velhinho,
Deve lhe causar certa estranheza uma carta de "gente grande", pedindo qualquer coisa, em meio a pedidos tão mais importantes das crianças. Não, não quero um videogame nem uma bicicleta, tampouco ganhar na loteria. Meu pedido é singelo, e para tanto precisaria eu, adulto, pegar uma máquina do tempo; e como nos filmes, voltar ao passado - como mero espectador da minha infância.
E lá eu veria uma menino gordinho, nascido no interior de Santa Catarina, com certa dificuldade e sofrimento da mãe, pelo parto normal.
Já em outra cidade, não vejo esse menino lembrando de seus pais juntos. Numa casa simples de madeira, muito aconchegante, vejo-o agora brincando num quintal que parecia infinito, em meio a goiabeiras, galinhas, cachorros... Ora montado numa motoquinha, ora empurrando o carrinho de bebê de sua irmã, loirinha, que acaba de nascer.
Debaixo do chão da casa o menino construía... casas. De pedaços e sobras de madeira. E de sonhos. E de exemplos do avô faz-tudo: marceneiro, carpinteiro, encanador, eletricista...
Ele aprendera a ler muito rápido; a mãe o ensinara antes da escola. Sempre com um elefantinho encardido, de pelúcia, a tiracolo.
Menino, mãe, irmã... E só. Seria assim por um bom tempo. Agora em outra casa, de cimento e telhado firmes, ele cuidava da pequena, enquanto a mãe trabalhava.
Cuidando e aprontando traquinagens, sempre repreendidas duramente, mas raramente repreensíveis. Desenhava casas, figuras geométricas no papel.
O bicho de pelúcia havia se perdido na mudança. O cachorro querido, de doze anos de idade, fora envenenado por algum vizinho.
O menino enterrou o cachorro - enorme - no quintal.
Logo depois a família de três junta-se a outra família. Novas relações. Novos reveses. Trabalhando desde muito cedo. Trabalhando e indo à escola. Trabalhando muito.
As casas sumiram dos desenhos. Apenas figuras geométricas.
Depois o menino cresce, vem a faculdade e a vida adulta. E eu desembarco da minha viagem, no hoje.
O senhor pode pensar, querido Noel, que com essa história talvez eu queira lhe pedir para "refazer" o passado. Não é o caso.
Tudo o que eu queria era dar um abraço nesse menino, fazendo as pazes com ele.
Feliz Natal.
Marcos.
quarta-feira, 16 de julho de 2014
Os bairros de São Paulo...
O pouco que aprendi em São Paulo, pelos cheiros dos bairros.
Moema, onde moro, cheira a cocô de cachorro. Ocasionalmente, a suvaco de quem está correndo ou Cheetos Bolinha das crianças no Ibirapuera.
Pinheiros cheira a ovo podre, dia e noite, graças às "límpidas" águas do rio de mesmo nome.
A Moóca cheira a carvão queimado das pizzarias e casas de massa.
O Centro cheira a mijo.
A Vila Madalena, reduto dos bichos-grilo, cheira à maconha. Toneladas.
Santa Cecília cheira a chulé, muitos moradores de rua ali.
Jardins cheira a perfume doce, das senhoras que passam pra cima e pra baixo com suas sacolas de letreiros chamativos.
Itaquera cheira a Corinthians.
Perdizes cheira à embreagem queimada, tanto que os motoristas sobe e descem as ladeiras.
Vila Prudente cheira a concreto.
Só tem obra por ali.
O Campo Belo cheira à querosene de avião.
O Brooklin quer cheirar como Manhattan, mas nem nesse cheiro consegue. No máximo à fumaça de escapamento...
segunda-feira, 14 de julho de 2014
"Peraí... Não foi bem assim... O senhor sabe como é, né?"
E numa repentina abordagem no estacionamento de um hospital nem tão perto daqui...
- Por favor, um minuto! O senhor é médico? Estou DE-SES-PE-RA-DO. Me ajude, pelo amor de Deus.
- Sim, pois não?
- Eu acabei de receber o resultado da biópsia da cirurgia da minha hemorróida e não consigo falar com meu médico... Estou angustiado - abre o envelope e me mostra - aqui diz que eu tenho HPV. Acabei de ver no Google que isso é verruga contagiosa e que é comum em viado. Mas eu não sou viado!
- Calma...
- Como isso foi parar lá dentro do meu c*?
- Bem...
Ligo o módulo "cara de paisagem".
- Eu não sou gay! Sou casado, tenho filhos e esposa!! Não vá o senhor me dizer que eu sou gay!
- Não falei nada... Mas o senhor há de convir comigo que de alguma forma esse HPV chegou "lá"...
E aquele senhor de meia-idade faz cara de pensativo, como que acessando arquivos longínquos da mente.
- Bem, doutor, só se foi naquele dia em que saí com umas meninas... O senhor sabe como é, né? E mão naquilo, aquilo na mão...
- Não sei não.
- E acho que elas passaram então alguma coisa por ali, na região, por trás, pode ser?
- Tudo pode nessa vida.
- Ah, doutor! - E me abraça aliviado. Como o senhor esclareceu tudo pra mim! Muito obrigado! Como é seu nome mesmo?
- Marcos. Não esqueça de retornar com seu médico.
- Posso marcar uma consulta com o senhor?
- É que sou Gastro.
- Ahhhh... Entendi. Estômago, né? Mas muuuuito agradecido mesmo assim, tirou um peso das minhas costas!
- Às ordens.
E seguiu seu caminho, mais leve, cantarolando até. Coitadas das "meninas", levaram a culpa dele.
====================================
Dr. Marcos Claudio Radtke CRM 107503
Cirurgião do Aparelho Digestivo - Gastro e Oncologia, na Zona Sul de São Paulo.
Contato:
Clínica Rhazis (clinica.rhazis@gmail.com)
Fone: (11) 5041 5507
Alameda dos Maracatins, 1435 - Conjunto 1009 - Moema - São Paulo - SP
CEP: 04.076-011
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