domingo, 14 de agosto de 2016

Dia dos Pais cansativo...


Na madrugada de ontem para hoje, domingo do Dia dos Pais, eu o Caio Pasquali operávamos mais um paciente com câncer, que nunca saberá quem ou o que fizemos com ele, pois, além de tudo, padecia de mal de Alzheimer. A cirurgia foi extremamente difícil, mas o paciente passa bem na UTI. 

Enquanto isso, em casa, minha esposa Patricia De Paulo Giacon, se virava sozinha com nossa filha Luísa, insone com a diarréia e o dentinho desassossegado que teima incomodar.

Meu primeiro Dia dos Pais foi cansativo. Nossa bebê continuava dodói e estávamos atônitos. Só melhorou, como quase sempre, no colo carinhoso do leite materno.

Dormi um pouco. Vi meu presente, um lindo porta-retratos, com nossas fotos agora da nossa família, que ganhei há uma semana (descobri o presente acidentalmente...).

Não durmo bem há dois anos. Piorou com o nascimento da Luísa.

Pensei no meu primeiro Dia dos Pais. 

O que é ser pai, senão fazer a diferença na vida de alguém, seja filho ou não?

Na vida de um paciente que nunca saberá quem sou? 

Na formação de um futuro excelente cirurgião?

Na vida de uma bebê que saberá exatamente quem eu sou?


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Dr. Marcos Claudio Radtke CRM 107503
Cirurgião do Aparelho Digestivo - Gastro e Oncologia, na Zona Sul de São Paulo.

Contato: 

Clínica Rhazis (clinica.rhazis@gmail.com)

Fone: (11) 5041 5507
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domingo, 26 de junho de 2016

Ser pai é não dar conta

Ser pai é não dar conta:

De noites mal dormidas seguidas de dias de trabalho;
De dias de trabalho com a cabeça na volta pra casa;
De dias de casa que passam muito rápido;
De papinhas;
De roupinhas;
De mais e mais roupinhas;
Daquela febre que não se sabe de onde vem;
Daquele sono de bebê que não se sabe quando vem;
Daquela noite inteira de sono que não se sabe se ainda vem;
Daquela coriza que teima em não melhorar;
Daquela rotina que não existe mais;
De tanta preocupação, presente e futura.

Ser pai é, no final, dar conta de tudo isso, pensando que não vai dar conta.

É pensar sempre que poderia dar "mais" conta (e se culpar por isso).

Ser pai é se expandir dentro da limitação.

É ver sua filha, dependente e vulnerável, e enxergar a si próprio assim: dependente, vulnerável, pequeno, frágil... humano.



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Dr. Marcos Claudio Radtke CRM 107503
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"Escrevam seu próprio destino"


Hoje fui um dos mestres homenageados pelos formandos Turma VII, da Faculdade de Medicina São Camilo. Uma honra poder discursar para estes meninos e meninas, agora colegas médicos. Que tenham sucesso e contem sempre comigo.

Abaixo o discurso na colação de grau, para quem tiver paciência...

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Hoje, eu só tenho a agradecer.

Quando era aluno de Medicina na Universidade Federal de Santa Catarina, lá no final da década de 90 do século passado, ficava admirando aqueles professores que me davam aula, passavam visita, literalmente pegavam na minha mão e me ensinavam...

Eu pensava, olhando para eles... "Será que um dia eu chegaria a ser como eles? Quanto tempo levaria? Como seria?"

Passados uns bons anos, o destino fez com que vocês, queridos da turma VII, viessem a ser, formalmente, minha primeira turma.

E eis-me aqui!

Vocês, turma VII, realizaram o meu sonho mais improvável.

Um sonho de menino. Serei ETERNAMENTE grato.

E é sobre este caminhar, entre sonhos e realidade, que eu gostaria de falar um pouco.

Lembram-se, há exatos seis anos, quando vocês passaram no vestibular, comemoraram, entraram na faculdade?

Lembram-se das expectativas, do frio na barriga?

Que SONHOS vocês tinham naquela época?

E, analisando hoje, passados estes longos anos de dura formação, quantos de seus sonhos foram FRUSTRADOS?

Quantas expectativas, DESFEITAS?

Quantas vezes a REALIDADE se impôs, com a sua habitual frieza, aos ideais que ficaram na “INOCÊNCIA” do início da faculdade?

Pensem, quantas vezes, principalmente no internato, vocês assistiram impotentes o sofrimento causado pela doença numa pessoa?

Agora, reflitamos de uma outra forma.

Quando, nestes seis anos, a realidade foi MELHOR que a expectativa?

Quantas vezes vocês se SURPREENDERAM com um sorriso gratuito, com uma cura de um doente desenganado, com um simples “OBRIGADO” vindo de um gesto de carinho para com alguém que adoecia?

Tantos sonhos... tantas incertezas... tantas surpresas boas e ruins.

Mas eu garanto que um sonho, e O MAIS IMPORTANTE DE TODOS, vocês estão realizando hoje:

O SONHO DE SER MÉDICO.

Vocês tornaram, a despeito de todas as dificuldades, todos os percalços, todas as noites mal dormidas, seu sonho em REALIDADE.

E por quê?

Porque em algum momento da vida vocês fizeram uma ESCOLHA.

Em algum momento, escolheram SER MÉDICOS.

Decidiram. Foram à luta. E chegaram até aqui, com todo o louvor.

Como se não bastasse, ESCOLHERAM também serem BONS, num mundo apodrecido onde a maldade parece ser o caminho mais fácil e óbvio.

Eu digo que vocês escolheram serem BONS com toda a propriedade, porque conheço CADA UM de vocês.

Convivemos por poucos mas intensos meses.

Quantas aulas, quantos desenhos meus (horríveis) naquele quadro branco tentando explicar que a "vesícula pode sim ter uma pedra"?

Corrigi as suas provas escritas (conheço a letra todos!).

Pude compartilhar das suas dúvidas e angústias frente aos pacientes naquele ambulatório lotado de pacientes da Gastroenterologia.

Angústias e dúvidas que eu mesmo tive enquanto aluno! E continuo tendo (espero que para sempre...)!

Quantas vezes nós conversamos sobre assuntos da vida depois das nossas aulas?

Quantos de vocês me puxavam num canto e me perguntavam:

“Professor, por que eu estudo tanto?”

“Para que eu estudo tanto?”

“Será que tudo isso no futuro valerá a pena?”

Responsabilidade enorme eu tinha nas minhas mãos, não?

Mas agora a faculdade terminou. O que vocês farão daqui para a frente?

Provas de residência, certo? Especialização?

Quem sabe um estágio no exterior? Há tanto a explorar, a Medicina é tão vasta.

Dá um medo, né?

Queridos médicos da turma VII, não tenham medo!

Ouso dizer que daqui para a frente, e por toda a sua carreira médica, vocês terão de equilibrar três grandes pratos:

- um prato com os sonhos;
- outro prato, das escolhas;
- e o prato da realidade, muitas vezes indigesto.

Sempre se perguntem:

"Este sonho é meu? Vem realmente do fundo do meu coração?"

"O que escolhi foi o que sonhei para mim?"

"Consigo lidar com a realidade e a consequência das minhas escolhas?"

Não tenham medo, pois vocês são bons... São bons de alma.

E, continuando a trilhar o caminho do bem, serão FELIZES.

Como disse Tucídides, há mais de dois mil anos atrás: “o SEGREDO da FELICIDADE é a LIBERDADE. O segredo da LIBERDADE... é TER CORAGEM”.

Meus filhos da turma VII, tenham CORAGEM para perseguir seus sonhos, fazendo suas próprias ESCOLHAS e ASSIM TRANSFORMEM a realidade a sua volta.

Escrevam seu próprio destino!

Um beijo enorme no coração de cada um, parabéns e MUITO OBRIGADO!


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Dr. Marcos Claudio Radtke CRM 107503
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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Pós-Carnaval



Quarta-feira de Cinzas... Convém separar a fantasia da realidade.

Por trás de uma bebê linda, saudável, fofinha e "cúti-cúti", há uma mãe-mulher-esposa que se estrebucha.

Estrebuchar é o verbo.

Mudanças no corpo, olheiras que denunciam noites e mais noites mal dormidas; fissuras e dor nas mamas. 

Escovar os dentes? Ir ao banheiro? Comer direito? Lavar o cabelo? Luxos bem esporádicos.

Ausência de tempo para si. 

Ausência de si para uma presença constante na vida da filha.

Ausência de manual de instruções. 

É... Ser mãe de verdade não é pra qualquer uma. Não mesmo.

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Dr. Marcos Claudio Radtke CRM 107503
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sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Em que tempo vivemos?

Sou descendente de alemães e a maior chaga que a Alemanha carrega (e carregará por um bom tempo ainda) se chama Nazismo (ou Nacional-Socialismo). Há uma infinidade de teses, livros, filmes, documentários e reportagens que tentam (em vão) entender as atrocidades cometidas por esta ideologia.

Em visita à Berlim, eu soube que existe uma geração de jovens alemães que simplesmente desconhecem boa parte deste pedaço da História: são filhos e netos de gente que tentou apagar a memória daqueles anos horrendos. Pessoas que se envergonham do próprio passado, e que encontraram nessa "amnésia seletiva" uma forma menos dolorosa de encarar o presente.

Hoje, nas ruas daquela capital, pode-se deparar facilmente com turmas de crianças (de sete a doze anos) que, guiadas por professores, são levadas a conhecer os monumentos em memória às vítimas do Nazismo (judeus, ciganos, homossexuais, deficientes físicos...)

A Alemanha aos poucos está deixando de ter vergonha de si mesma, fazendo com que seus jovens cidadãos voltem a ter consciência crítica do passado.

Depois de muitos anos, a "base teórica" do Nacional Socialismo, a obra "Mein Kampf" ("Minha Luta") de Hitler, foi liberada para publicação.

Era até então censurada.

Aqui, no Brasil, pessoas estão comprando o livro e denunciando as livrarias ao Ministério Público, clamando pela volta da proibição da obra, por "incitação ao ódio, ao racismo, e ao anti-semitismo", argumentos estes totalmente verdadeiros.

Mas, para sabermos disso, precisamos primeiramente ler a obra para então decidirmos (aliás, uma das armas da propaganda nazista era queimar livros em praça pública, estimulando os jovens a ler apenas as publicações do Partido).

Quem lê, decide. Quem não lê, desconhece.

E quem lê também decide se outros podem ler?

Em que tempo vivemos? 

Em que tempo queremos viver?

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quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

O ano das "paternidades"

IEste 2015 foi o ano do acerto das “paternidades”.

Em primeiro lugar, da paternidade reconhecida. 

“A guerra, para muitos de nós, é a cura”, disse o personagem Capitão Nascimento, do filme Tropa de Elite. 

Operar e ensinar cirurgia eram a minha cura (e, confesso, continua assim...). O menino-adolescente que cresceu encontrando figuras paternas erráticas ou hipócritas, muito machucado tanto física como emocionalmente, encontrou na sala de cirurgia o palco ideal: de um lado, o corpo do paciente, inerte, “agredido” formalmente pela fria lâmina do bisturi; de outro, o médico-residente, o “filho” adotado por mim, seu “pai”, seu médico-preceptor. Ensinar cura pela agressão; tentar ser o melhor pai (que nunca tive) para um filho (que não é meu), e que precisa muito, muito de mim. Parece perfeito.

E esta paternidade foi reconhecida: meus alunos, da XIII turma de Medicina da UNICID, me homenagearam como mestre, ao lado de cabeças tão mais experientes e grisalhas... Meu muito obrigado aos meus filhos, que agora saíram do ninho e ganharam o mundo. Sentirei saudades.

Em segundo lugar, da paternidade conquistada. 

São quase dois meses do nascimento de nossa filhota Luísa, presente maior que minha mulher Patricia poderia me dar. E que presente! E que trabalho cuidar de alguém cuja vida depende integralmente de você, inexperiente e ainda por cima portador da sensação comum a muitos de nós médicos: a de que tudo de pior pode acontecer a qualquer momento com sua filha. Luísa nasceu de parto cesáreo, e confesso que planejávamos o parto normal, que não ocorreu, apesar da indução. 

Na hora de seu nascimento, eu só lembrava de quando eu era aluno do sexto ano, e estava estagiando na sala de parto do Hospital Universitário. Chegou uma moça, de seus trinta e poucos anos, gestante de nove meses, internando junto com seu esposo para indução do parto: mas o feto já estava morto, e nem lembro direito o porquê: ela já sabia disso, e estava num estupor, num estado de dissociação da realidade perfeitamente compreensível. Naquele momento fui seu obstetra, e administrava os mesmos comprimidos que minha esposa havia usado para a indução da minha filha. Depois de algum tempo, de um grito contido e uma contração forte, eis que emerge daquela fortaleza de mulher um bebê menino, acinzentado, inerte, que rolou pelo colchão como um boneco de madeira. Sem vida. E depois a placenta, enegrecida e fétida.

“Doutor, deixa eu pegar o meu menino”. 

Mas... Ele está... Morto... Ela sabia já...

Cortei o cordão umbilical, envolvi o corpinho perfeito e gorduchinho num lençol e o entreguei ao colo da mãe, que o balançava e ninava... “Meu filho, meu filho...”

De repente, ouvi um choro. O choro mais agudo e doloroso que jamais ouviria em toda a minha vida. 

Era o choro do pai. 
Quando Luísa nasceu, tive muito medo de ouvir este mesmo choro. Eu não ouvi, mas juro que na hora lembrei daquele pai, daquela mãe, daquele bebê provavelmente cercado de todas as expectativas e das melhores intenções do mundo. E pior, de certamente haver tantos e tantos bebês saudáveis mas não desejados e não queridos. O que será deles? 

Esta paternidade, conquistada, me conquista todos os dias. A amamentação, o banho, a troca de fralda, o choro, pequenas risadinhas, muita bochecha e amor. Repito o clichê: só quem tem um filho sabe o que é a felicidade de ter um filho.

Por último, e não menos importante, da paternidade redefinida.

O nascimento da netinha paulistana traria meu pai para dentro da minha casa: seria inevitável. E assim ocorreu.

Pela primeira vez eu o recebi em casa, dentre tantas e tantas casas em que vivi. Eu não tinha mais desculpas para não recebe-lo: ele tinha meu endereço e eu continuava morrendo de medo de não saber lidar com alguém que pouco lidei.

No fundo, além de conhecer a neta, ele veio também ver a homenagem de meus alunos: confete sempre foi o seu forte.

Eu fiquei sempre na defensiva, esperando o momento do desgaste e da tensão. Nada disso ocorreu.

Era apenas o meu pai, um senhor boquirroto de seus setenta e poucos anos, que chegou do interior de Santa Catarina após doze horas de viagem dentro de um ônibus, apenas para ver seu filho e conhecer sua neta. Apenas e especialmente isto.

Pela primeira vez consegui fazer um café para ele, e comprar seu pão na padaria, e – estranhamente - nem por um segundo desejar que ele fosse embora ou que eu mesmo desaparecesse. Não havia o lugar para o embora.

Pela primeira vez eu o vi sentado, fazendo uma refeição, na minha casa, falando sobre minhas coisas, sobre nossas coisas, assuntos prosaicos e aqueles nem tanto.

Pela primeira vez eu o recebi em algum evento sem passar vexame. Sem sentir vergonha de mim, nem dele.

Quando o deixei na rodoviária, desejei secretamente que ele ficasse mais um pouco. Sabia, também secretamente, que mais tempo não era desejável – o racional se impôs e preferi que o momento ficasse congelado no que considerei ideal. Meu pai conseguiu ser pai, e eu consegui ser seu filho.

Em 2015, meus filhos-alunos me chamaram de “pai”. (Na frase de um deles, que nunca esquecerei: “O senhor não me ensinou Medicina, ensinou a ser Médico”).

Em 2015, tornei-me pai de verdade e ganhei uma filha que nos encanta a cada dia.

Em 2015, consegui ser filho de um pai de verdade, mesmo que por um breve momento.

Em 2015, muita coisa bastante bagunçada se ajeitou, meio sem querer.

Que venha 2016.


domingo, 18 de outubro de 2015

A maior diarréia da minha vida

No Dia do Médico, eu me lembrei da maior diarreia da minha vida...

Havia acabado de me formar em 2002, e logo seria chamado para servir ao Exército, como oficial médico, na cidade amazonense de Tabatinga, fronteira com o Peru e a Colômbia.

Recém-formado, ainda na fralda, cru e inocente de tudo, fui lotado no Hospital da Guarnição. Minha função (e a de outros médicos iguais a mim, vindos de todos os cantos desse Brasilzão) era a de ser “médico”, ou seja, atender e resolver o que aparecesse na frente.

Eu já havia passado na prova da especialização em cirurgia geral, e isso na prática não me credenciava a nada, naquela região carente de tudo.

Casos mais graves? Três dias de barco até Manaus. Impraticável. Impossível.

Era preciso ser médico.

Era preciso ser pediatra, ginecologista, obstetra, cirurgião, clínico, intensivista, eventualmente anestesista e psiquiatra.

Tive sorte: junto com meu recém-amigo Fabio Leonetti e o Tenente Messias (in memorian), este o único cirurgião formado, ficamos nós três responsáveis pela “Cirurgia” de todo o Alto Rio Solimões.
Éramos, naquele hospital de 26 leitos, a referência para várias cidades ribeirinhas, à época em torno de 80 mil pessoas.

Durante aquele ano de 2003, nossa rotina - agitada e extenuante - de partos, cirurgias, traumatismos, atendendo recém-nascidos, crianças, adultos e idosos - transcorria sem grandes sobressaltos: bem ou mal, havia um cirurgião e alguns meninos-médicos curiosos e esforçados.

Mas um dia, em novembro, chegou um telegrama na Guarnição: era a transferência do Tenente Messias. O único cirurgião “de verdade” logo iria embora para Salvador, sua terra natal.

E ele foi.

Ficamos sozinhos, eu e o Fabio, a “retaguarda cirúrgica”.

O Exército, na sua infinita desorganização, não previa transferência para a cidade de nenhum outro cirurgião até o início do ano seguinte.

Eu me pegava, todas as noites, pedindo para que não aparecesse nenhum caso grave naqueles dois longos meses que ainda faltavam para a nossa transferência.

Toda a ligação telefônica era um sobressalto, seguida de um alívio até... bem, até a próxima ligação. Passamos um mês ilesos.

Até que, num plantão do hospital, o soldado me chamou.

- Tenente Marcos, rádio do pelotão de fronteira, é o Tenente Guilherme!

Guilherme era jovem médico, como eu, e atendia num destacamento do exército isolado na floresta. O acesso era feito por barco, avião da Força Aérea ou excepcionalmente de helicóptero. Não deveria ser nada de mais.

- Marcos, estou aqui com o recruta João [nome fictício], 17-18 anos de idade, acho que está com apendicite...

A transmissão do som do rádio era sofrível.

- Ele está grave?
- Mais ou menos. Vou ter que transferi-lo de helicóptero, acho que não é prudente deslocamento por barco. O próximo avião aqui só no mês que vem.
- Ok, pode mandar...
- Já mandei... Ahahaha. Tem algum cirurgião aí? 
- Não chegou ninguém ainda, só estamos eu e o Fabio.
- Xiii, boa sorte! Pode colocar no currículo que eu te mandei a primeira apendicite da vida!!

Eu ri da brincadeira séria.

Apendicite, inflamação do apêndice, é uma doença de tratamento cirúrgico de urgência. Pode se apresentar como um caso leve ou extremamente grave.

As horas não passavam. Chegado o recruta, eu o examinei e confirmei o diagnóstico. Não tínhamos nenhum exame complementar. E nem era preciso.

Chamei meu amigo e começamos a cirurgia.

Eu suava frio.

Lembro de não ter falado durante o procedimento. Não sei nem se respirei ou pisquei os olhos.

Os dois médicos recém-saídos da faculdade, operando sem treinamento específico, no meio da Amazônia. Era o que havia disponível. Era o possível.

A cirurgia terminou no finalzinho da tarde, e havia transcorrido bem.

Indo a pé para casa, eu parecia carregar minha cabeça fora do corpo. Não pensava em absolutamente nada. Tirei a farda, tomei um banho.

E comecei a suar novamente. Depois as cólicas. E a diarreia. Vários episódios, um milhão de episódios. Fiquei umas duas horas no banheiro.

“Operamos sozinhos.”
“Um menino de dezoito anos.”
“Não temos formação.”
“E... se acontecer alguma coisa com ele? Re-opero? Transfiro? A quem me reporto? A quem pedirei ajuda, opinião?”
“Fiz uma incisão muito grande!”
“Não temos UTI nem antibióticos caso ele precise.”
“Será que não estou esquecendo de alguma coisa?”
“Conferi tudo?”
“E se não foi o suficiente?"
"E se...? E se...? E se ele morrer...?"

E dá-lhe mais diarreia. Eu estava tão exausto e imundo que tomei mais um banho e fui dormir, bebendo apenas água.

Acordei no meio da madrugada, sonhando que o paciente havia tido uma hemorragia interna, e que os pontos haviam soltado, e que a artéria do apêndice arrebentou...

Liguei para o hospital. Eram duas, ou três, ou quatro da manhã.

- Pois não, tenente!
- Como está o recruta João?
- Está ótimo, sem dor, com os sinais vitais normais, etc.
- Coloque o paciente na semi-intensiva.

“Semi-Intensiva” era um eufemismo para um leito no hospital que tinha uma atenção melhor da enfermagem.

- Mas tenente, precisa mesmo...?
- Por favor, coloque... Por favor... Agora...

Liguei para o meu amigo.

- Fabio, eu sonhei que o João complicou, que abriram os pontos, que sangrou.
- Cara, não fala isso não, eu acredito muito nestas coisas... Pára com isso.
- Vou para lá agora. Não consigo dormir.
- Rato branco – era esse o meu apelido, dado pelo Ten. Messias – deixa que eu vou. E te aviso.

Fiquei acordado até o retorno da ligação.

- Ele está ótimo. Você o colocou na “semi”??

E assim o pós-operatório do paciente transcorreu sem problemas.

Duas semanas depois eu o recebi para retirada dos pontos. Realmente tinha sido uma incisão exagerada e altamente “não estética”.

Era, sim, um menino de dezoito anos, simples e semi-analfabeto, de origem indígena, como tantos outros... Ser soldado do Exército naquelas paragens correspondia a uma ascensão social impensável para a maioria da população.

- Tenente Marcos, eu não sabia que essa doença que eu tive podia matar. Minha mãe falou que teve uma amiga que morreu disso, de apendicite!

- É verdade, pode sim – aquiesci. Mas o seu caso não foi tão grave assim...

- Mas poderia ter morrido se senhor não me operasse. O senhor me permite agradecer?

No rígido código militar, um subalterno nunca, sob nenhuma hipótese, pode fazer menção de cumprimentar um oficial sem permissão deste.

Eu estendi minha mão e o abracei.

- Muito obrigado, tenente, por tudo o que o senhor fez por mim.


Mal sabe o recruta João que eu até hoje agradeço por tudo o que ELE fez, e faz, por mim. 

Todos os dias.